O desenvolvimento das cidades brasileiras alcançou uma encruzilhada definitiva diante do aumento de eventos climáticos extremos, impondo a necessidade urgente de superar o modelo tradicional de engenharia focado exclusivamente no concreto. Nesse cenário de transformação, o conceito de soluções baseadas na natureza (SBN) vem se consolidando como a principal diretriz para redesenhar o ordenamento territorial, articulando desde a concepção de loteamentos residenciais e intervenções de infraestrutura viária até parques lineares de grande porte e leis municipais de uso do solo. O alinhamento prático e conceitual entre o poder público, órgãos técnicos de licenciamento ambiental e a iniciativa privada tem revelado que a conservação dos fluxos naturais não apenas reduz os impactos de inundações e secas severas, mas também impulsiona a valorização econômica, melhora a qualidade de vida e regenera áreas urbanas consolidadas.
Essa mudança estrutural de paradigma esteve no centro dos debates do seminário promovido pelo Secovi-SP, em correalização com a Associação das Empresas de Loteamento e Desenvolvimento Urbano (Aelo), o Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (SindusCon-SP) e a Câmara Ambiental da Indústria da Construção da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb). Durante o painel intitulado “SBN como estratégia de projeto no desenvolvimento urbano”, especialistas de diferentes áreas apresentaram estudos de caso emblemáticos implementados em municípios como Niterói (RJ), Guaramirim (SC), Balneário Camboriú (SC) e São José dos Campos (SP), demonstrando a viabilidade operacional e a urgência da incorporação desses parâmetros em todo o território nacional.
Repensando o território: a água e a regeneração como base do desenho urbano
A incorporação das soluções baseadas na natureza nas políticas territoriais exige, antes de tudo, uma revisão profunda do olhar de engenheiros, arquitetos, urbanistas e gestores públicos sobre a paisagem. Durante a abertura do debate, o codiretor da ECOMIMESIS Soluções Ecológicas Urbano-Paisagísticas, Pierre André Martin, ressaltou o simbolismo da união entre os diferentes atores da cadeia construtiva e do poder público em torno de uma agenda sustentável comum: “É muito emocionante ver governo, agências técnicas, construtoras, mercado privado e loteadoras falando a mesma língua e reconhecendo a importância das SBN”. Ele explicou que o movimento não pode ser compreendido como uma simples exigência burocrática adicional, mas sim como uma transformação epistemológica na ocupação do espaço. “SBN não é uma nova norma, não é uma nova técnica, é uma nova maneira de se relacionar com o território. Todo mundo aqui, loteador, projetista, quem vai aprovar, o fiscal que vai acompanhar o projeto e licenciar, tem que entender que o território é como um corpo, e somos todos responsáveis pela saúde desse corpo.”
Ao defender uma relação mais equilibrada entre as cidades e seus suportes geofísicos, Martin questionou os métodos tradicionais de exploração imobiliária e de expansão desordenada da malha urbana: “Como podemos ter uma proposta em que não seja mais um ciclo de extração, mas um ciclo de regeneração, aplicado a vários tipos de ambientes?”. Segundo o especialista, o planejamento precisa obrigatoriamente se iniciar com uma leitura cuidadosa e atenta do ecossistema local, evitando a tentação tecnocrática de impor modificações artificiais imediatas sem a devida compreensão prévia. “O primeiro ato criativo que você pode fazer, e que é coerente, é sentar e olhar, conversar com as pessoas e entender como aquele território é. Nós, seres humanos, temos mania de chegar e colocar soluções, então temos que ter muito cuidado, mesmo com as soluções baseadas na natureza.”
Para fundamentar essa abordagem regenerativa, o codiretor resgatou a metodologia do influente paisagista escocês Ian McHarg, autor da obra seminal Design with Nature, lançada em 1969, que propôs o método de planejamento por sobreposição de camadas ambientais e sociais. “As camadas do meio físico, do meio biológico e do meio social são o tripé básico do entendimento do território, um instrumento de que precisamos antes de aplicar a longa série de soluções que o guia exemplifica, detalha e ainda articula com as agências de aprovação”, observou Martin, fazendo menção ao material orientativo apresentado aos técnicos ambientais. A necessidade de cautela metodológica ganha ainda mais relevância diante da vulnerabilidade das espécies e do relevo nativos: “A natureza brasileira é muito frágil, é muito sensível. Você tira uma árvore, você tem um solo exposto e tudo desanda”.
Dentro dessa nova lógica projetual, a bacia hidrográfica deixa de ser tratada como um mero obstáculo a ser drenado por galerias pluviais de concreto e passa a ocupar o papel central de organização das estruturas urbanas. Martin pontuou que os ciclos hídricos revelam as vocações naturais de cada porção do terreno: “Vamos lembrar do ciclo hidrológico. Vamos colocar as linhas da água dentro do projeto e a água como elemento estruturador do projeto de urbanismo, de paisagismo, de engenharia. A água é um recurso, não é um resíduo”. Ele ainda desmistificou o discurso recorrente sobre enchentes nas metrópoles contemporâneas: “Onde alaga na cidade é onde estava a água. Não é que está alagando, é que o prédio está dentro de um lugar onde alagava naturalmente”. O arquiteto defendeu também uma escolha semântica mais consciente nas discussões institucionais, propondo o termo funções ecossistêmicas no lugar da denominação tradicional de serviços ecossistêmicos: “Eu acho mais reverente em relação ao que a natureza é para a gente”.
Outra provocação apresentada diz respeito à responsabilidade compartilhada sobre o espaço da cidade. Frequentemente, a exigência de retenção hídrica e preservação biológica acaba sendo direcionada exclusivamente para as Faixas Marginais de Proteção (FMPs) e as Áreas de Preservação Permanente (APPs), sobrecarregando os fundos de vale públicos. “O maior custo das SBN é a metragem quadrada, em todos os âmbitos, seja no âmbito de uma rua, seja no de uma FMP. Fica inquestionável o potencial das FMPs para as SBN, mas o resto do território tem que fazer a sua parte também”, argumentou. Para Martin, o verdadeiro salto na escala de impacto ocorrerá quando a legislação e os agentes do mercado imobiliário conseguirem incorporar esses mecanismos no interior das propriedades privadas. “A maior superfície do território, quando a gente fala de cidade, é privada, e há de se trazer as SBN para dentro desses lotes com muita urgência.” Ele reforçou esse apelo regulatório ao sugerir os próximos passos para os manuais de orientação: “Que essa paleta de SBN, esse trabalho espetacular sendo feito aqui, não fique apenas em áreas verdes e em APPs, mas seja estendida às áreas privadas, para que cada um faça o seu papel. Talvez esse seja um desafio para o próximo guia”.
Parque Orla Piratininga: métricas, tecnologia e valorização socioambiental em Niterói
A comprovação prática dos benefícios trazidos pelas soluções ecológicas foi detalhada pela arquiteta e professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), Raquel Azevedo da Cruz, que atuou como moderadora da mesa. Raquel compartilhou sua experiência direta no desenvolvimento do Parque Orla Piratininga (POP), localizado em Niterói, intervenção apontada como o maior parque urbano estruturado com base em SBN em todo o Sul global. A especialista acompanhou o projeto desde a sua gênese acadêmica em pesquisas de pós-graduação na PUC-Rio até a sua aplicação concreta, período no qual integrou o quadro técnico da Prefeitura de Niterói. O empreendimento ocupa as margens de um complexo sistema lagunar fluminense que sofria com a degradação e com a hipersalinização de suas águas doces originais, decorrentes da urbanização descontrolada de seu entorno ao longo das décadas.
Ao desconstruir visões simplistas sobre o paisagismo ecológico, Raquel enfatizou o rigor científico indispensável para o sucesso dessas intervenções: “As SBN são tecnologia. E, quando a gente pensa nelas assim, existem versões novas. Não é pegar aquilo e copiar, é olhar, entender o que deu certo e o que pode melhorar”. Essa sofisticação técnica demanda um método integrado entre o plano diretor e os projetos complementares de engenharia, evitando que o desenho da drenagem continue a ser relegado a uma etapa posterior e dissociada da arquitetura. “É um modo de projetar multiescalar, em que você projeta no macro e no micro ao mesmo tempo. Não adianta projetar o urbanismo no macro e depois entregar para o pessoal resolver a drenagem.”
Outra lição determinante extraída do Parque Orla Piratininga envolve o equilíbrio entre os processos naturais e a sustentabilidade financeira da manutenção pública a longo prazo. Conforme demonstrou a arquiteta, quanto menor for a interferência de estruturas cinzas e artificiais de contenção, menor será o custo contínuo de conservação para o erário: “Quanto mais natural for, menor a manutenção e maior a eficiência do sistema no final”. Ela ressaltou que a definição antecipada de uma linha de base é condição elementar para que os resultados ecológicos possam ser comprovados com seriedade. “Por conta de pensar nas métricas durante a concepção, você consegue medir se alcançou o seu objetivo. Isso produz dado e produz conhecimento.”
O monitoramento ambiental do parque revelou números contundentes: 75% dos serviços ecossistêmicos foram ampliados, 25% foram integralmente mantidos e nenhum sofreu redução. Em relação às metas e diretrizes estabelecidas no planejamento inicial, 40% foram plenamente atendidas, 40% alcançadas de forma parcial e apenas 20% não foram atingidas. Avaliando esses balanços, Raquel reforçou a capacidade de resiliência e constante aprimoramento do sistema: “Por mais que o projeto apresente necessidade de reformulação de alguns índices, de melhoria da qualidade da água, ele não perde serviço ecossistêmico, ele só cresce”.
Além da recuperação hidrológica e do saneamento das águas que chegam à lagoa por meio de filtros naturais, a obra transformou a dinâmica social e econômica da região oceânica de Niterói. “O uso público foi recuperado, as famílias ocupam o território e é possível circular de bicicleta. É um território devolvido à cidade”, declarou Raquel. No campo imobiliário, os terrenos localizados no perímetro imediato do parque registraram forte valorização, alcançando cifras superiores a R$ 1 milhão. Paralelamente, o município incluiu áreas locais como Áreas de Especial Interesse Social no plano diretor, estabelecendo bases para programas de regularização fundiária de moradias vulneráveis.
A regeneração ambiental também proporcionou o rápido retorno da biodiversidade e da vida aquática ao ecossistema local. Raquel relatou ter avistado um colhereiro no jardim do parque na mesma semana em que o evento foi realizado, além de compartilhar um testemunho emblemático recebido da equipe de campo: “Ele me disse: ‘Raquel, na boca dos filtros não morre peixe’. Fui analisar e existe uma ampliação da oxigenação da água”. Diante desses ganhos, ela ressaltou que a capacitação profissional do mercado da construção civil continua sendo um passo fundamental a ser perseguido: “Existe uma tradução das SBN pelos engenheiros, e isso também é uma evolução, porque, quando você chega com uma SBN para uma engenharia tradicional, nem sempre ela consegue captar e traduzir, porque existe uma dificuldade de regulamentar e de formação. Estamos aprendendo fazendo, mas agora temos alguns estudos de caso aplicados”.
Experiências em Santa Catarina: a teia ecológica de Guaramirim e a inovação vertical em Balneário Camboriú
Em outra frente de discussão, o sócio-diretor da Indio da Costa Placemaking, Guto Índio da Costa, compartilhou soluções estratégicas elaboradas para duas realidades urbanas distintas no estado de Santa Catarina. O primeiro projeto detalhado foi o masterplan desenvolvido para o município de Guaramirim, localidade com população estimada entre 40 mil e 50 mil habitantes, situada estrategicamente entre os polos de Jaraguá do Sul e Joinville, e que mantém grande porção do seu território com características rurais. O urbanista destacou que os desafios sociopolíticos do planejamento frequentemente superam os cálculos técnicos: “A coisa mais difícil de um masterplan não é fazer o projeto, é convencer as pessoas da importância do projeto”.
Para construir a adesão social necessária à aprovação e continuidade das diretrizes, a equipe técnica estruturou uma ampla estratégia de engajamento comunitário: “Foram cerca de 1.500 discussões tentando explicar o quanto essas áreas eram importantes. Fizemos um masterplan quase como um livro didático, mostrando exemplos e soluções mundo afora e explicando o valor que isso traz para as áreas remanescentes”. O Rio Itapocu, que serpenteia o município ao longo de aproximadamente 30 quilômetros de extensão, foi escolhido como a espinha dorsal de todo o ordenamento urbano. “Propusemos que ele se tornasse o grande coração da cidade e o grande indutor do crescimento. Eu até brinquei: considerem essas margens sagradas.”
Guto defendeu que a preservação do meio ambiente converteu-se em um vetor indispensável de competitividade entre os municípios que buscam atrair novos investimentos produtivos e reter moradores qualificados: “As cidades bem-sucedidas conseguem se comunicar de maneira muito positiva e muito bem estruturada”. A visão estratégica concebida para Guaramirim consolidou o conceito de integração territorial contínua: “Uma verdadeira cidade-parque, um parque-cidade”. Na prática, o desenho urbano articulou as áreas de preservação já existentes aos topos de morros e às matas ripárias: “Todas essas áreas verdes, que chamamos de teia ecológica, foram propostas como zonas de preservação. As linhas correm ao longo dos rios e encontram os morros e as áreas de preservação já existentes”.
Mobilidade sustentável integrada e as ecovias fluviais
Essa teia ecológica projetada ao longo dos cursos d’água serviu de base física para uma rede inovadora de deslocamentos diários, conectando os bairros às zonas rurais e de serviços. “Conseguimos mais de 100 quilômetros do que chamamos de ecovias, porque essa figura não existe no nosso código de transporte. Temos ciclovia, temos rua, mas existe um espaço entre esses dois universos, e nós o nomeamos ecovias.” Com gabarito de 8 metros de largura, as ecovias foram desenhadas exclusivamente para abrigar modalidades de micromobilidade — conceito definido por Guto como o tráfego de patinetes, bicicletas elétricas, triciclos e pequenos carrinhos de golfe. “Poder cruzar um território inteiro ao longo de rios e parques e se conectar a todas as áreas da cidade por ecovias foi









