O avanço dos eventos climáticos extremos tem imposto desafios inéditos para a infraestrutura das cidades e para a cadeia da construção civil, exigindo transformações profundas na forma como o espaço urbano é projetado, aprovado e edificado. Diante desse cenário de transição ecológica e necessidade de adaptação, o Secovi-SP promoveu, no dia 24 de setembro, o evento “Soluções Baseadas na Natureza no Desenvolvimento Urbano: Diretrizes Técnicas, Projetos e Experiências no Setor Imobiliário”. A conferência reuniu em São Paulo incorporadores, loteadores, construtores, projetistas, engenheiros, arquitetos e autoridades públicas em torno de uma pauta urgente: como transformar as chamadas Soluções Baseadas na Natureza (SBN) em práticas consolidadas e viáveis no planejamento urbano e no licenciamento ambiental.

O propósito central do debate concentrou-se na identificação e na difusão de alternativas técnicas aptas a elevar a resiliência dos centros urbanos frente às oscilações do clima, diminuindo vulnerabilidades históricas associadas a enchentes, ilhas de calor e degradação dos recursos hídricos. Ao longo de uma programação extensa dividida em painéis temáticos, os especialistas demonstraram que a aplicação da infraestrutura verde e dos ecossistemas restaurativos não deve ser encarada como um apêndice decorativo, mas sim como um vetor estruturante que precisa integrar os empreendimentos imobiliários desde o desenho inicial da prancheta até as fases finais de aprovação técnica e licenciamento nos órgãos governamentais.

Convergência institucional entre poder público e cadeia produtiva

A mesa de abertura do encontro evidenciou a urgência de uma articulação direta entre as entidades representativas do setor privado e as autoridades que regulam o uso e a ocupação do solo. O palco reuniu lideranças corporativas como Jorge Cury, presidente do Secovi-SP; Ely Wertheim, presidente executivo do Secovi-SP; Caio Portugal, presidente da Aelo-SP (Associação das Empresas de Loteamento e Desenvolvimento Urbano) e vice-presidente de Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente do Secovi-SP; e Carlos Borges, vice-presidente de Tecnologia e Sustentabilidade da entidade anfitriã. Somaram-se a eles Eduardo May Zaidan, presidente executivo do SindusCon-SP, e Francisco Antunes de Vasconcellos Neto, que atua como vice-presidente do SindusCon-SP e preside a Câmara Ambiental da Indústria da Construção da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb).

Pelo poder público, integraram o debate nomes decisivos na formulação de políticas urbanas e fiscalização ambiental no estado de São Paulo, incluindo José Renato Nalini, secretário executivo de Mudanças Climáticas da Prefeitura de São Paulo; Lacir Ferreira Baldusco, presidente do Grupo de Análise e Aprovação de Projetos Habitacionais do Estado de São Paulo (Graprohab); e Thomaz Miazaki de Toledo, advogado ambiental, biólogo e presidente da Cetesb. A presença conjunta desses agentes reforça que a modernização do desenvolvimento urbano exige sintonia entre as exigências de preservação e os fluxos administrativos de análise técnica, reduzindo a insegurança jurídica que historicamente freia projetos inovadores.

A aproximação entre reguladores e agentes imobiliários é determinante para destravar a implementação das soluções naturais em escala metropolitana. Enquanto a administração municipal paulistana busca instrumentos para frear os impactos térmicos e pluviométricos no município, os órgãos estaduais como Cetesb e Graprohab desempenham o papel de avaliar a viabilidade de loteamentos e grandes empreendimentos habitacionais, estabelecendo o padrão regulatório que define o que pode ser aprovado e executado nos municípios do estado.

Diretrizes regulatórias e padronização técnica para aprovação

O primeiro painel técnico do dia, denominado “Novas Referências Técnicas para Projeto e Aprovação”, dedicou-se a dissecar os parâmetros e critérios regulatórios que norteiam a análise e o licenciamento ambiental no estado de São Paulo. A condução dos trabalhos envolveu a participação técnica direta de representantes da agência ambiental paulista: Celia Poeta, assessora de Diretoria de Controle e Licenciamento Ambiental da Cetesb; Adriana Goulart, gerente de Divisão de Apoio Técnico e Gestão de Recursos Naturais da Cetesb; e Jadna Beltrame Lemos, gerente da Agência Ambiental de Desenvolvimento Urbano e Parcelamento do Solo da Cetesb.

O foco das exposições esteve na necessidade de parâmetros claros para que projetos que utilizem técnicas regenerativas, como pavimentos drenantes, jardins de chuva, bacias de retenção integradas e reflorestamento de matas ciliares, tramitem com agilidade e clareza técnica pelos órgãos de controle. O painel também contou com as contribuições de Ruth Portugal, coordenadora do Grupo de Trabalho de Soluções Baseadas na Natureza (GT SBN) da Cetesb e diretora tanto do Secovi-SP quanto da Aelo-SP, que atua na interface entre os pleitos do setor produtivo e as exigências ecológicas dos técnicos estaduais.

A normatização dessas técnicas no âmbito nacional foi aprofundada por Lilian Sarrouf, superintendente do Comitê Brasileiro da Construção Civil (ABNT CB-002) e coordenadora técnica do Comitê de Meio Ambiente (Comasp) do SindusCon-SP, ao lado de Raquel Azevedo da Cruz, coordenadora na Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) e fundadora da Ecótono Paisagem. O debate demonstrou que a formalização de normas técnicas pela ABNT é peça-chave para conferir respaldo aos projetistas, garantindo que as intervenções naturais sejam dimensionadas com rigor científico e aceitas sem entraves pelos analistas públicos durante a fase de análise de viabilidade dos loteamentos.

A concepção urbanística orientada pela infraestrutura ecológica

A transição de uma engenharia cinza convencional para modelos híbridos ou estritamente verdes exige que as soluções ecológicas sejam pensadas no início da prancheta arquitetônica. O tema pautou o painel “SBN como Estratégia de Projeto no Desenvolvimento Urbano”, que explorou como o desenho das cidades pode integrar a topografia, a hidrografia natural e a vegetação nativa antes mesmo de qualquer movimentação de terra ou implantação de redes subterrâneas.

A mesa reuniu novamente a arquiteta Raquel Azevedo da Cruz, que dividiu reflexões com Guto Índio da Costa, sócio-diretor da Indio da Costa Placemaking, e Pierre André Martin, codiretor da Ecomimesis Soluções Ecológicas Urbano-Paisagísticas. Os especialistas reforçaram a importância do conceito de placemaking e da biomimética aplicada ao urbanismo, abordando a criação de espaços públicos vivos, praças inundáveis funcionais e áreas comunitárias que combinem convivência social com serviços ecossistêmicos indispensáveis para o amortecimento de tempestades e regulação climática local.

A dimensão da gestão pública no urbanismo sustentável foi detalhada por Marcelo Manara, secretário de Urbanismo e Sustentabilidade de São José dos Campos. A experiência apresentada pelo gestor ilustrou como o planejamento municipal pode incentivar o uso do solo resiliente por meio de leis de zoneamento adaptadas, demonstrando que cidades de médio e grande porte têm a oportunidade de remodelar seus planos diretores para viabilizar diretrizes que aproximem o poder municipal das necessidades ambientais contemporâneas.

Mecanismos de financiamento e viabilidade econômica dos projetos

Um dos maiores entraves para a expansão em larga escala de soluções regenerativas reside na comprovação de sua atratividade e sustentabilidade econômico-financeira. Esse aspecto foi o cerne do painel “Financiamento e Viabilidade Econômica das SBN”, que debateu custos de implantação, retorno sobre investimento e estruturação de novos instrumentos de captação de recursos alinhados às finanças verdes internacionais.

A perspectiva metodológica e econômica foi trazida por Bruno Incau, coordenador de Financiamento e Economia Urbana no WRI Brasil, ao lado de Mara Alvim Motta, gerente nacional de Finanças Sustentáveis, e Myriam Tschiptschin, diretora de Smart Cities do Centro de Tecnologia de Edificações (CTE). Os palestrantes enfatizaram que, embora o investimento inicial em soluções ecológicas possa eventualmente exigir modelagens específicas, os custos de manutenção ao longo do ciclo de vida dos empreendimentos tendem a ser significativamente inferiores aos sistemas de drenagem pesada convencionais, além de valorizarem o metro quadrado comercializável.

O debate apontou ainda que o setor da construção civil precisa dominar as métricas socioambientais exigidas por fundos de investimento e bancos de desenvolvimento. O acesso a linhas de crédito verde, títulos com rotulagem ESG (ambiental, social e de governança) e incentivos fiscais depende fundamentalmente da capacidade de os incorporadores demonstrarem, por meio de dados mensuráveis, a eficácia climática de seus loteamentos e edifícios em quesitos como retenção hídrica, redução de pegada de carbono e preservação de biodiversidade.

Casos práticos e experiências reais no setor imobiliário

A aplicação concreta dessas metodologias em empreendimentos já realizados ou em fase adiantada de execução dominou o painel “SBN na Prática: Experiências e Aplicações”, a sessão mais numerosa de toda a conferência, reunindo especialistas de diferentes áreas da engenharia, arquitetura paisagística e gestão ambiental para analisar desafios reais de canteiro de obras e pós-ocupação.

O setor de engenharia esteve amplamente representado por Maite Pinheiro, coordenadora do Setor de Infraestrutura Verde da Geasa Engenharia; Tarcisio Miranda, engenheiro de Projetos da ADS Tigre; e Beatriz Codas, sócia-diretora da Geasa Engenharia. Juntos, os profissionais compartilharam dados sobre projetos de engenharia civil que substituíram galerias tubulares fechadas por soluções abertas e naturalizadas, evidenciando ganhos de eficiência hidráulica, contenção de sedimentos e integração visual à paisagem urbana.

A visão municipal regional e a prática de licenciamento descentralizado foram abordadas por Gabriel Dias Mangolini Neves, engenheiro ambiental e assessor técnico da Secretaria Municipal do Clima, Meio Ambiente e Sustentabilidade de Campinas, que representou a Regional Secovi-SP no município paulista. O intercâmbio técnico também contou com a experiência de Duarte Vaz, diretor e arquiteto paisagista da Embyá, e de Adriana Levisky, arquiteta e urbanista, sócia da Levisky Arquitetos, conselheira da AsBEA-SP (Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura de São Paulo) e vencedora do Prêmio Pensador de Cidades no biênio 2023-2025.

Completando a rodada prática de estudos de caso, participaram Juliana Alvarenga Alencar, engenheira ambiental e bióloga; Marcelo Novaes, arquiteto paisagista com mais de quatro décadas de trajetória no mercado imobiliário brasileiro; e Paulo Velzi, engenheiro civil especialista em desenvolvimento urbano e gestão ambiental. A pluralidade de trajetórias evidenciou que a execução bem-sucedida de soluções ecológicas depende da superação de modelos isolados de projeto, exigindo um trabalho transdisciplinar que unifique cálculos estruturais, hidrologia, botânica e ciências ambientais desde os primeiros estudos de viabilidade territorial.

Questionamentos do mercado e os próximos passos da regulação

O encerramento do evento deu lugar a uma dinâmica interativa de perguntas e respostas em formato “pinga-fogo”, permitindo que o público presente, composto majoritariamente por profissionais e empresários da cadeia da construção, confrontasse os especialistas com dúvidas operacionais sobre barreiras regulatórias, prazos de aprovação de licenças e compatibilização de projetos.

A bancada final de respostas reuniu nomes que haviam participado das discussões anteriores: a arquiteta e professora da PUC-Rio Raquel Azevedo da Cruz; a diretora do Secovi-SP e da Aelo Ruth Portugal; a gerente Jadna Beltrame Lemos e a assessora de diretoria Celia Poeta, ambas da Cetesb; além da diretora Myriam Tschiptschin, do CTE. A rodada serviu para consolidar as conclusões dos painéis técnicos, demonstrando que, embora já existam metodologias consolidadas de engenharia e paisagismo ecológico, a uniformização dos critérios de análise técnica nos municípios e órgãos ambientais continua sendo um dos pontos mais sensíveis para a difusão massiva dessas soluções.

A conferência deixou claro que o avanço das Soluções Baseadas na Natureza no Brasil ultrapassou a fase da mera teoria conceitual e ingressou em uma etapa pragmática de estruturação normativa e operacional. A articulação entre Secovi-SP, Aelo-SP, SindusCon-SP, Cetesb, Graprohab e entidades normativas como a ABNT sinaliza que os próximos passos do setor imobiliário estarão atrelados à criação de manuais técnicos unificados, modernização de códigos de obras municipais e expansão de instrumentos econômicos que remunerem o desempenho ecológico das novas cidades brasileiras.