A vice-presidência de Habitação Econômica do Secovi-SP e o Comitê de Habitação Popular do SindusCon-SP reuniram-se nesta quinta-feira, 17 de setembro, em encontro que combinou a atualização de pautas setoriais com a apresentação do Pólis Global, iniciativa conjunta do CEBRI e do Instituto Urbem voltada à articulação do setor imobiliário nas discussões internacionais sobre clima, tecnologia e desenvolvimento urbano. A abertura ficou a cargo de Daniela Ferrari, vice-presidente de Habitação Econômica do Secovi-SP e do Comitê de Habitação Popular do SindusCon-SP. “Vou apresentar aqui o Philip, diretor-presidente do Instituto Urbem e conselheiro consultivo internacional do CEBRI, a quem convidamos, e agradecer à Fernanda e à Izabella pela participação. O objetivo do CEBRI é, primeiro, apresentar a instituição para nós e o núcleo de Cidades que está concebendo, para vermos como podemos construir uma colaboração”, afirmou.
Yorki Estefan, presidente do SindusCon-SP, deu as boas-vindas em nome das duas entidades. “Sejam muito bem-vindos a esta reunião conjunta das vice-presidências de habitação do SindusCon-SP e do Secovi-SP. Nossas entidades estão unidas na promoção de uma construção cada vez mais eficiente e sustentável. Entre nossas ações, estamos sintonizados com a importância do tema das cidades inteligentes, e ficamos bastante interessados em conhecer o núcleo de Cidades Inteligentes do CEBRI e seus planos”, disse.
Panorama econômico e desempenho de lançamentos em São Paulo
O diretor de Economia do Secovi-SP, Celso Petrucci, apresentou o panorama do mercado paulistano com base nos dados fechados até julho de 2026. “Estamos com os dados apontando o lançamento, na cidade de São Paulo, de 146 mil apartamentos nos últimos 12 meses, dos quais 99,6 mil pelo Minha Casa, Minha Vida. O valor desses lançamentos está perto de R$ 80 bilhões, sendo R$ 51 bilhões de médio e alto padrão e R$ 28 bilhões do Minha Casa, Minha Vida. Nas vendas, em 12 meses, foram 118 mil unidades, 69% do Minha Casa, Minha Vida e 31% de médio e alto padrão, somando R$ 61 bilhões em VGV”, informou. Segundo ele, “o tíquete médio na cidade de São Paulo é de R$ 282 mil, um crescimento de 6% em relação a 2025, e a velocidade de vendas do Minha Casa, Minha Vida é quase o dobro da de outros mercados, com tempo de escoamento de oferta de 8 meses, contra 13 meses nos demais segmentos”. Celso adiantou ainda que “agosto deve trazer um volume de lançamentos ainda maior no Minha Casa, Minha Vida do que o verificado em julho”.
O presidente executivo do Secovi-SP, Ely Wertheim, apresentou o Instituto Ampliar, organização de capacitação profissional e inclusão produtiva de jovens que completa mais de 35 anos de atuação. “Todas as empresas associadas do Secovi estão sendo convidadas a adquirir cotas de mantenedoras. O valor começa em R$ 12 mil por ano, em 12 parcelas de R$ 1 mil, e há opções para quem quiser contribuir com valores maiores. As mantenedoras recebem o selo para utilizar em sua publicidade e cumprir a régua de ESG”, explicou.
Pautas institucionais, FGTS e relações com o poder público
Na sequência, Daniela Ferrari apresentou o balanço da pauta institucional. Sobre o Código de Obras Nacional Simplificado, disse que “o Grupo de Trabalho de Produtividade da CBIC está debruçado sobre a minuta que propusemos em conjunto com o SindusCon e a Abrainc, baseada em normas de desempenho. Não se trata de padronizar zoneamento ou uso do solo, que são prerrogativas municipais, mas sim o código de edificações e ambientes internos. O Brasil tem sete zonas bioclimáticas bem definidas, o que não justifica termos milhares de regras distintas entre municípios”. Sobre a relação com a Caixa Econômica Federal, Daniela relatou que “a Caixa sinalizou preocupação com a nova norma do Banco Central para contabilização de inadimplência, que gera um impacto nominal pesado no balanço em razão da carteira imobiliária de R$ 1 trilhão. A proposta do setor é aceitarmos reduzir o pró-soluto se a Caixa elevar o LTV, financiando até 90% na Faixa 1, ou aumentar a margem de comprometimento de renda de 30% para 35%. A Caixa está avaliando isso junto ao Ministério das Cidades, para a criação de um fundo garantidor desse risco adicional”.
Sobre as emendas parlamentares ao Minha Casa, Minha Vida Cidades, Daniela citou apresentação do consultor orçamentário da Câmara dos Deputados, Ricardo Volpe. “Hoje, mais de R$ 60 bilhões do orçamento federal estão alocados em emendas parlamentares, mas apenas R$ 13 milhões foram destinados à habitação neste ano. A recomendação é articularmos diretamente com as bancadas federais durante a elaboração orçamentária, entre setembro e novembro”, afirmou. Já sobre o FGTS, Daniela celebrou avanços recentes no Conselho Curador. “Tivemos duas grandes vitórias na semana passada: a aprovação do aumento do orçamento de descontos de R$ 12,5 bilhões para R$ 13 bilhões e a aprovação histórica do pleito para financiar infraestrutura de saneamento não incidente com recursos do fundo, como estações elevatórias, adutoras, reservatórios e ETEs exigidas pelas concessionárias. Agora, essas obras poderão ser financiadas com taxas subsidiadas do FGTS”, disse.
Detalhes de programas habitacionais e fundos municipais
Sobre o programa municipal Pode Entrar, Daniela informou que “a Secretaria do Tesouro Nacional aprovou a capacidade de pagamento do município para o financiamento de R$ 1 bilhão junto ao Itaú, com garantia da União, mas o limite de endividamento com essa garantia está saturado, e sem a ampliação desse teto a liberação está travada”. Questionada por Ronaldo Cury, vice-presidente de Relações Institucionais do SindusCon-SP, sobre os recursos das outorgas onerosas, Daniela detalhou que “o Fundurb arrecadou R$ 946 milhões no primeiro semestre de 2026, mas já possui obrigações contratadas e empenhadas da ordem de R$ 1,6 bilhão, alocadas principalmente para o Programa Mananciais e o Aluguel Social. O saldo em caixa caiu de R$ 567 milhões em janeiro para R$ 205 milhões em junho, e a receita futura está totalmente comprometida”.
Sobre o Código Sanitário Estadual, Daniela reforçou que “a proposta técnica elaborada em conjunto com CDHU, Crea e AsBEA ainda não foi publicada, e enquanto isso temos municípios operando com três exigências distintas de pé-direito”. No Casa Paulista, destacou “a publicação da décima etapa do programa” e informou que o setor “encaminhou proposta para reajuste do subsídio estadual, hoje entre R$ 10 mil e R$ 16 mil, para uma faixa entre R$ 12 mil e R$ 20 mil, com segmentação territorial para viabilizar moradias de um dormitório na região central da capital”. No campo da desburocratização, Daniela citou a parceria entre o Insper e o Policy Lab na capacitação de secretários municipais de habitação, com resultados já concretos, como o decreto de flexibilização de vagas para HIS em Várzea Paulista e projetos de lei em Franca para adequação do pé-direito às normas da ABNT.
Análise da execução orçamentária do fundo
Consultor do Secovi-SP, Luiz Fernando Mendes apresentou a execução orçamentária do FGTS com base nos dados de julho e prévias de agosto. “Tivemos o alongamento de prazo no financiamento habitacional de 25 para 30 anos no Pró-Cotista e na produção, o que reduz o valor das parcelas e amplia a capacidade de tomada de crédito das famílias. Nos financiamentos à aquisição e à produção, observamos uma aceleração de 15% de junho para julho, superando o mesmo período do ano anterior”, disse. Segundo ele, “a Faixa 2 vem sofrendo um forte achatamento, por estar prensada entre o teto de renda da Faixa 1 e os juros mais elevados da Faixa 3”, enquanto “a Caixa voltou a operar com intensidade o Pró-Cotista a partir de julho, e a Faixa Estendida, para famílias com renda entre R$ 9,6 mil e R$ 13 mil, tem registrado alta procura”.
Chegada do Pólis Global e os desafios da urbanização sustentável
A segunda parte do encontro foi dedicada à apresentação do Pólis Global. Philip Yang, diretor-presidente do Instituto Urbem e conselheiro consultivo internacional do CEBRI, afirmou: “o Urbem completou 15 anos de atuação com foco na estruturação de projetos na escala urbana. O setor privado é extremamente competente na escala do lote e da incorporação imobiliária, mas a cidade precisa ser pensada também na escala mais ampla, onde as conexões urbanas acontecem”. Sobre a nova iniciativa, disse que “o Pólis Global pretende criar uma plataforma em que o setor empresarial da construção não apenas responda passivamente às transformações climáticas e tecnológicas, mas lidere a formulação de respostas a esses desafios, tanto na esfera nacional quanto nas arenas internacionais”.
Philip destacou que “menos de 5% a 10% dos recursos dos fundos climáticos internacionais chegam à escala municipal” e que “toda empresa de incorporação e construção civil muito em breve será, essencialmente, uma empresa de tecnologia”, citando que “no Urbem desenvolvemos ferramentas capazes de sobrepor mais de 180 camadas de dados georreferenciados num único clique, análises que há três anos demandavam meses de consultorias”. Diretora de Projetos do CEBRI, Fernanda Cimini detalhou os pilares da iniciativa. “Estruturamos o programa do Pólis Global sobre quatro pilares: geopolítica, multilateralismo e cidades; segurança climática; segurança pública e desenho urbano; e inteligência espacial e dados. Na próxima semana, apresentaremos a iniciativa na Climate Week de Nova York, na Missão do Brasil junto à ONU”, informou.
Segundo ela, “o programa está desenhado para um ciclo de dois anos, prevendo a criação do Urban Implementation Lab e uma conferência anual, com cotas de copatrocínio institucional e empresarial no valor global de R$ 5 milhões”. Conselheira consultiva internacional do CEBRI, Izabella Teixeira trouxe reflexões sobre os limites materiais da urbanização. “A demanda mundial por biomassa, minerais metálicos, agregados e cimento vai dobrar até 2060. Como o setor da construção civil brasileira pretende operar nesse cenário de escassez material e pressão descarbonizadora?”, questionou.
Iniciativas atuais do setor e encerramento do encontro
Sobre a adaptação climática das edificações, afirmou: “não existe solução sustentável baseada em colocar três aparelhos de ar-condicionado em apartamentos de habitação de interesse social, a rede de distribuição elétrica colapsaria. É preciso repensar o desenho arquitetônico, a ventilação natural, a cobertura vegetal urbana e as tecnologias de isolamento térmico”. Izabella também chamou atenção para a realidade amazônica: “80% dos 28 milhões de habitantes da região amazônica vivem em cidades com infraestrutura precarizada. Por que o setor imobiliário nacional não lidera projetos de habitação amazônica sustentável, adaptada ao clima tropical úmido?”.
Representantes das duas entidades relataram iniciativas já em curso alinhadas à proposta. Ely Wertheim citou que “o nosso DataSecovi já conta com dezenas de camadas ativas e estruturadas sobre o espaço urbano paulistano, e a integração dessas bases com modelos preditivos é plenamente viável”. Ronaldo Cury destacou “a calculadora de carbono do setor, desenvolvida em conjunto pelas nossas entidades”, ao que Daniela Ferrari complementou: “o SindusCon desenvolveu o Secarbon em cooperação com a GIZ alemã e a Caixa, calculando emissões de gases de efeito estufa nos canteiros, e agora estamos ampliando o sistema para aferir a pegada hídrica das edificações”. Yorki Estefan acrescentou: “participamos ativamente das iniciativas do ICLEI com o setor da construção civil, levando propostas para prefeituras e participando de encontros internacionais. O setor produtivo não está distante dessa agenda, ele já está executando intervenções concretas”.
Ao encerrar o encontro, Daniela Ferrari agradeceu aos convidados do CEBRI e do Urbem. “Quero encerrar lembrando que este auditório do Secovi e do SindusCon tem história. Tanto o programa Minha Casa, Minha Vida quanto as diretrizes de habitação de interesse social no Plano Diretor Estratégico de São Paulo foram gestados e desenhados tecnicamente pelos empresários sentados nesta mesa, antes de se tornarem políticas públicas de sucesso. Nós sabemos como fazer, temos capacidade técnica instalada e continuaremos trabalhando para construir as cidades e o Brasil que queremos para o futuro”, declarou, encerrando a reunião.







