O avanço da inteligência artificial no setor imobiliário brasileiro tem ocorrido sem a existência de um manual definitivo. Durante a vigésima terceira Convenção Secovi-SP, executivos de tecnologia e operações de diversas construtoras e incorporadoras se reuniram no painel intitulado Terap.IA para debater abertamente as inovações, os tropeços e as lições aprendidas na tentativa de automatizar e otimizar processos internos de negócios.
A mediação do encontro foi realizada conjuntamente por Marcus Sarkis, diretor do Secovi-SP, e Caroline Mathias, executiva especialista nas áreas financeira, de operações e marketing de relacionamento. O debate contou com as contribuições de Sabrina Ribeiro, diretora de Operações da Cury Construtora; Caroline Abreu, head de Inovação e Tecnologia, Qualidade e Meio Ambiente da MPD; Leonardo Araújo, diretor de Operações Financeiras, Tecnologia e Inovação da Plano&Plano; e Laryssa Kakuiti, economista do Secovi-SP.
A fase de experimentação no mercado imobiliário
Ao contextualizar o levantamento realizado junto às incorporadoras associadas, Marcus Sarkis apontou que as companhias navegam por um território de testes contínuos. “Não existe fórmula pronta. Tá todo mundo no modo tentativa, tá todo mundo acertando, errando e extraindo as lições aprendidas”, afirmou. O dirigente destacou que, ao mesmo tempo que a IA permitiu com que a gente testasse muita coisa, fizesse muita PoC e visse alguns processos funcionando muito melhor, a gente consegue perceber que em alguns pontos, em algumas áreas, a gente também tá chegando em conclusões como: do jeito que tava antes tava funcionando bem também, ou até melhor.
Dessa forma, o setor reconhece que a tecnologia precisa entregar valor prático e não apenas cumprir uma exigência de modernidade. A curva de aprendizado envolve desde a execução de testes conceituais até o recuo em áreas onde o método tradicional ainda se mostra mais eficiente ou estável para a rotina corporativa.
Modelos de governança e estruturas organizacionais
A forma como as empresas estruturam a inovação varia de acordo com a cultura interna de cada organização. Na Cury Construtora, a estratégia adotada dispensou a criação de um departamento exclusivo para temas tecnológicos. Sabrina Ribeiro descreveu o modelo adotado pela Cury, baseado em comitês e comissões específicas em vez de uma área central de inovação, ressaltando o impacto profundo da novidade.
“Diante do assunto da inteligência artificial, acho que a gente tá vivendo aí mais uma onda, mas talvez a mais transformadora desde a internet. Algo tão transformador que vai mudar as relações não só no trabalho, nas relações de produção, mas como a gente se relaciona com o mundo no geral”, disse. A diretora detalhou que internamente, na construtora, ao invés de criarmos uma área, assim como não fizemos com a área de inovação, nós adotamos o modelo de comitês e comissões específicas para serem discutidas. Acho que é uma forma de a gente verdadeiramente juntar todas as perspectivas, complementando com dados de pesquisas recentes que mostram que 88% das empresas já falam de algum tipo de utilização de IA. Então nós passamos dessa etapa. Você querendo ou não, sua empresa tendo um plano estruturado ou não, a IA está lá dentro.
Facilitadores e a cultura corporativa
Na MPD, a abordagem prioriza uma estrutura enxuta de tecnologia que atua de forma transversal. Caroline Abreu detalhou a estrutura da MPD, baseada em uma área pequena de tecnologia que atua como facilitadora da inovação dentro da companhia, enfatizando que a tecnologia precisa estar disseminada em todos os setores.
“A gente tem uma área de inovação, mas é uma área superpequena, eu sempre falo. Nós somos grandes facilitadores para que realmente as tecnologias e a inovação aconteçam, porque inovação é cultura. Nem falo que é cultura de inovação, mas a empresa ter a inovação realmente como parte da cultura. E isso a gente vê no quanto essa empresa tá aberta para experimentação”, afirmou a executiva. Ela complementou que a IA tá aí, a competitividade tá aí, e quem não tá se organizando e garantindo que o negócio tenha a tecnologia cross, fica para trás. Não é a área de tecnologia que tem que saber, mas o negócio realmente precisa entender como isso funciona.
Estratégia híbrida e riscos de segurança
Por sua vez, a Plano&Plano optou por um arranjo que une o engajamento da alta liderança com iniciativas espontâneas das equipes operacionais. Leonardo Araújo explicou o modelo híbrido adotado pela Plano&Plano, que combina uma campanha institucional liderada pelo CEO da companhia com iniciativas nascidas nas próprias áreas operacionais.
“Nós optamos por um modelo híbrido. A gente quer que seja top-down: o CEO da companhia foi eleito o embaixador da IA dentro da empresa, para que todo mundo possa entender que existe uma campanha interna e que queremos estar na vanguarda”, disse o diretor. Ele acrescentou que foram criados mecanismos de capacitação para mitigar riscos de vazamento de informações confidenciais. “Criamos também um letramento para toda a base da companhia, com cursos e programa de aprendizado. Dentro desse programa, criamos os multiplicadores de cada área. Você tem os grandes projetos corporativos vindo de cima para baixo e pequenos projetos nascendo nas áreas vindo de baixo para cima. Em algum momento isso vai se encontrar e a companhia vai estar toda inserida dentro desse ecossistema de evolução”, relatou.
O executivo também alertou para os perigos do uso desregulamentado por parte dos colaboradores. “Não adianta esquecer a parte de baixo, porque o cara vai pegar os dados da sua companhia e jogar no ChatGPT sem governança nenhuma: dados confidenciais, balanço, financeiro. Ele bota lá na nuvem, desenvolve uma automação sem governança e isso vira base de aprendizado para a IA. Não dá para deixar sem governança ou liderança corporativa”, afirmou.
Retorno sobre o investimento e desafios operacionais
A mensuração de resultados práticos demonstra tanto avanços expressivos quanto barreiras ligadas à paciência no treinamento das ferramentas. Leonardo Araújo citou exemplos concretos de retorno sobre investimento em atendimento ao cliente e cobrança, pontuando que na cobrança, também temos um agente de IA que faz a cobrança de primeiro nível de boa parte da carteira. Antes, eu pagava uma empresa terceirizada e remunerava um fee sobre o que ela recuperava. Hoje não pago mais fee dentro daquela faixa de atraso, porque a IA faz a cobrança com performance inclusive melhor do que as empresas que operavam antes.
Apesar do ganho de eficiência, o diretor ponderou que nem todos os projetos avançam com a mesma facilidade, explicando que a IA generativa é como uma criança: você precisa ensinar, ter dedicação. Às vezes a área recebe o MVP e não tem paciência para treinar; acha que vai dar 100% de resultado no D+1. Tivemos projetos escanteados porque a própria área não estava disposta a dar a atenção necessária naquele momento.
Na Cury, a aplicação bem-sucedida em análises de terrenos gerou ganhos expressivos de tempo. Sabrina Ribeiro apresentou o case de estudo de massa da Cury, que reduziu de cinco dias para poucas horas o tempo de resposta sobre viabilidade de terrenos para compradores, destacando que queríamos dar respostas rápidas aos compradores de terreno sobre a viabilidade de ofertas. Em vez de gastar cinco dias, queríamos responder em horas ou minutos. Esse projeto já vai para o terceiro ano e dele evoluímos para quantitativos, roteirização de estaca e conversor de CAD para Revit para acelerar o BIM. Isso gera valor real.
Desafios na construção civil e o fator humano
No ambiente dos canteiros de obras, a escassez de dados padronizados ainda representa um obstáculo relevante para a expansão tecnológica. Caroline Abreu tratou dos desafios específicos da adoção de IA no canteiro de obras, onde a estruturação de dados ainda é incipiente em boa parte das empresas, explicando que no canteiro, o grande desafio é o dado. Estamos há três anos com Data Lake e estruturação de dados. Quem tá errando hoje geralmente é quem não tem dados estruturados e não tem mapeamento de processos.
Além da infraestrutura digital, a gestão de pessoas e o fator cultural demandam atenção constante dos gestores. A executiva reforçou que a tecnologia não é o principal: são as pessoas. Meu dia a dia é focado em letramento. Tem gente com medo de perder o emprego, tem a realidade dura do canteiro de obras lidando com empreiteiros sem esse know-how. Muitas vezes as coisas não avançam não pela tecnologia ou pelo processo, mas pelas pessoas. O problema do ROI muitas vezes está no quanto investimos tempo nas pessoas e na sua capacitação.
Foco em problemas reais e próximas novidades do setor
Ao serem questionados sobre as principais lições aprendidas, os painelistas convergiram para a importância de resolver problemas reais antes de aplicar tecnologia. Leonardo Araújo pontuou que o maior aprendizado é entender que nem tudo é inteligência artificial. A maioria das demandas exige redesenho de processo antes de qualquer tecnologia. Você pode usar a IA para melhorar o processo, mas não deve construir um ecossistema de IA sobre processos ruins, senão você só potencializa o erro.
A visão foi corroborada por Caroline Abreu, que destacou que precisamos resolver problemas reais, não apenas usar a tecnologia pela tecnologia, senão o ROI não vem. Hoje trabalhamos com mapeamento de processos as is e to be. Toda solicitação entra em um funil para avaliarmos se aquele é realmente o processo mais crítico e impactante para o negócio.
Encerrando as discussões, Sabrina Ribeiro resumiu o recado final do painel, aconselhando que o foco principal, especialmente para quem é de tecnologia e vem sofrendo uma pressão enorme, é: não se deixe seduzir pela tecnologia. Seja obcecado pelo problema. A maioria das pessoas ainda tem dificuldade para destrinchar o problema na raiz. O foco precisa ser resolver gargalos para operar melhor. Quanto melhor operamos, melhor a empresa fica.
Por fim, Laryssa Kakuiti apresentou novidades tecnológicas desenvolvidas pelo próprio Secovi-SP para apoiar o mercado imobiliário, incluindo ferramentas de inteligência analítica e consultas urbanísticas automatizadas. Dentro do GeoSecovi, desenvolvemos dois agentes de IA: um focado em tirar dúvidas sobre as funcionalidades da ferramenta e outro especialista em legislação urbanística da cidade, apto a responder sobre potencial construtivo, outorga onerosa e regras do Plano Diretor e da Lei de Zoneamento. A plataforma está em fase final de testes e estará disponível exclusivamente para associados a partir do próximo mês, concluiu a economista.









