O avanço das discussões sobre sustentabilidade e resiliência climática nas cidades brasileiras ganhou um novo capítulo com a realização de painéis dedicados integralmente às chamadas Soluções Baseadas na Natureza (SBN). Realizado em 24 de setembro de 2026, o encontro reuniu profissionais de destaque para discutir como os ecossistemas naturais podem inspirar intervenções urbanas estruturadas, substituindo ou complementando sistemas tradicionais de engenharia cinza por alternativas sustentáveis. Os debates abrangeram desde os parâmetros normativos e a tramitação burocrática de licenciamento até os caminhos para assegurar recursos financeiros e a execução física de projetos em diferentes escalas metropolitanas.
Ao longo da programação, especialistas e agentes do setor imobiliário, da arquitetura e da gestão pública examinaram os pilares fundamentais para transformar diretrizes ecológicas teóricas em soluções aplicadas aos centros urbanos. A agenda temática foi dividida em quatro grandes módulos: novos referenciais técnicos voltados a projeto e aprovação; planejamento territorial com foco no desenho urbano; sustentabilidade econômico-financeira; e a análise de casos reais que demonstram como essas intervenções se comportam após a implementação.
Diretrizes regulatórias e novos parâmetros para aprovação técnica
O processo de inserção de infraestruturas verdes no tecido urbano passa, obrigatoriamente, pela consolidação de normas claras de engenharia, arquitetura e análise ambiental. No módulo intitulado Novas Referências Técnicas para Projeto e Aprovação, as especialistas Jadna Beltrame Lemos e Ruth Portugal apresentaram os aspectos centrais que orientam a elaboração de projetos executivos alinhados aos critérios vigentes dos órgãos reguladores e das secretarias municipais.
A formulação de projetos que incorporam Soluções Baseadas na Natureza exige uma compatibilização minuciosa com as exigências dos planos diretores, das leis de parcelamento do solo e dos códigos de obras locais. Durante as exposições conduzidas por Jadna Beltrame Lemos e Ruth Portugal, o foco esteve na importância de padronizar parâmetros de dimensionamento hidrológico, especificações botânicas e métodos construtivos que garantam segurança jurídica aos empreendedores e eficácia funcional às intervenções públicas e privadas. As normas técnicas fornecem uma base para que analistas técnicos e equipes de licenciamento possam avaliar, com clareza, a capacidade dessas estruturas de reter água, mitigar ilhas de calor e preservar a permeabilidade do solo.
Um dos pontos mais discutidos em relação aos trâmites de aprovação é o descompasso histórico entre as legislações urbanísticas tradicionais e as inovações sustentáveis. Projetos que preveem jardins de chuva, valas de infiltração ou telhados verdes, por exemplo, muitas vezes enfrentavam indefinições normativas no momento da análise pelos órgãos fiscalizadores. Nesse sentido, as orientações técnicas apresentadas funcionam como um guia orientador para destravar licenças, oferecendo subsídios técnicos tanto para os projetistas quanto para o poder público, permitindo que a inovação ambiental não fique retida em exigências burocráticas desconexas da realidade contemporânea.
A integração das soluções ecológicas ao desenho urbano
Superada a etapa dos critérios técnicos pontuais, a aplicação de conceitos verdes demanda uma visão de conjunto sobre o território. O painel SBN como estratégia de projeto no desenvolvimento urbano reuniu as contribuições de Pierre André Martin e Marcelo Manara, que aprofundaram a discussão sobre a inserção das dinâmicas ecológicas nas etapas iniciais do planejamento urbano e da concepção arquitetônica.
A incorporação dessas metodologias de maneira estratégica redefine a relação entre áreas construídas e espaços livres. Em sua explanação, Pierre André Martin detalhou como o desenho das cidades pode tirar proveito da topografia original, das linhas de drenagem natural e da cobertura vegetal existente para desenhar bairros mais funcionais, arejados e integrados à paisagem. Em vez de canalizar córregos ou pavimentar superfícies contínuas, a estratégia apresentada defende a criação de corredores ecológicos capazes de conectar parques urbanos, praças e áreas privadas, gerando benefícios diretos para a qualidade do ar, o conforto térmico e a mobilidade ativa da população.
Dando continuidade à perspectiva urbanística, Marcelo Manara enfatizou o papel da gestão do solo e da governança metropolitana na viabilização dessas intervenções estruturantes. Manara abordou como os projetos de desenvolvimento urbano precisam equilibrar a densidade populacional, as demandas habitacionais e a preservação dos serviços ecossistêmicos. A integração precoce das soluções ecológicas na prancheta de arquitetos e urbanistas evita custos operacionais elevados no futuro, ao mesmo tempo em que eleva a atratividade e o valor socioambiental dos empreendimentos imobiliários e das obras de reurbanização promovidas pelas administrações municipais.
Mecanismos de financiamento e sustentação econômica das intervenções
Mesmo com projetos bem concebidos e regulamentações definidas, a viabilidade de qualquer empreendimento depende diretamente de arranjos financeiros consistentes. O tema foi debatido no painel Financiamento e Viabilidade Econômica das SBN, conduzido pelas palestrantes Mara Alvim Motta e Myriam Tschiptschin, que analisaram os instrumentos econômicos disponíveis para custear a implantação e a manutenção de infraestruturas baseadas na natureza.
Mara Alvim Motta abordou a estruturação de modelos de captação de recursos e parcerias capazes de sustentar intervenções de médio e longo prazo. Entre os instrumentos discutidos, ganham relevância as fontes de financiamento ligadas a títulos verdes, fundos de investimento com foco em sustentabilidade e mecanismos de incentivo fiscal ou urbanístico concedidos pelas prefeituras. A sustentabilidade financeira de um projeto ecológico não se resume aos custos da fase de obras; ela envolve também a previsão de recursos para zeladoria contínua, garantindo que o desempenho ambiental dos sistemas vegetados permaneça estável ao longo de seu ciclo de vida.
Completando a avaliação econômica, Myriam Tschiptschin analisou a viabilidade sob a ótica do retorno sobre o investimento e da redução de externalidades negativas. Em sua apresentação, Tschiptschin destacou como as intervenções que adotam soluções ecológicas apresentam, em muitos casos, custos de ciclo de vida inferiores aos de sistemas convencionais, graças à diminuição de gastos com manutenção corretiva em redes de drenagem fechadas e à valorização patrimonial das áreas no entorno de intervenções bem arborizadas. A mensuração de métricas socioambientais tornou-se indispensável para atrair investidores institucionais que exigem critérios rigorosos de sustentabilidade corporativa para conceder aportes ou linhas de crédito diferenciadas.
Casos práticos, intervenções paisagísticas e desafios de execução
A passagem da teoria para os canteiros de obras demanda experiência executiva, conhecimento de materiais e monitoramento pós-ocupação. Sob o tema SBN na prática: Experiências e Aplicações, os palestrantes Duarte Vaz, Adriana Levisky, Marcelo Novaes e Paulo Velzi compartilharam estudos de caso e lições aprendidas a partir de obras implementadas no mercado nacional.
O arquiteto e urbanista Duarte Vaz analisou a complexidade executiva e a necessidade de articulação multidisciplinar na execução de obras urbanas. Vaz pontuou que a integração entre engenharia civil, paisagismo e planejamento hidrológico é um pré-requisito para evitar falhas de execução. Durante a apresentação, foram expostos os passos operacionais essenciais para assegurar que sistemas de drenagem natural, como bacias de amortecimento integradas à paisagem urbana, funcionem perfeitamente tanto em períodos de estiagem quanto durante eventos extremos de precipitação pluviométrica.
Na sequência, a urbanista Adriana Levisky explorou projetos que transformam o espaço coletivo e conectam o ambiente construído ao cotidiano dos cidadãos. Em sua intervenção, Levisky destacou intervenções de requalificação urbana onde as soluções ecológicas atuam como catalisadoras de convivência social e segurança urbana. O desenho de praças, calçadas drenantes e espaços de lazer que dialogam com a drenagem urbana e com a vegetação nativa comprova que a técnica sustentável pode e deve ser acompanhada de uma ocupação qualificada do espaço público, beneficiando pedestres e moradores das regiões atendidas.
O paisagista Marcelo Novaes contribuiu com um olhar focado nas soluções botânicas e na escolha adequada das espécies vegetais para projetos urbanos e condomínios horizontais ou verticais. Novaes demonstrou que a sustentabilidade de uma intervenção reside, em grande parte, no uso criterioso de espécies adaptadas ao clima local, reduzindo a demanda por irrigação artificial intensiva e diminuindo a vulnerabilidade a pragas urbanas. O paisagismo funcional, portanto, deixa de ser meramente decorativo e assume o papel de infraestrutura ativa na regulação térmica e na retenção de água da chuva.
Encerrando as exposições práticas, Paulo Velzi apresentou os desafios logísticos e as etapas de manutenção que acompanham obras de infraestrutura verde. Velzi enfatizou a importância de capacitar a mão de obra responsável pela execução física dos projetos e detalhou como cronogramas de conservação preventiva evitam a degradação de valas de retenção, jardins filtrantes e superfícies permeáveis. As experiências compartilhadas reforçam que o sucesso das soluções adotadas depende diretamente de uma gestão contínua e de protocolos técnicos rigorosos após a entrega da obra.
Perspectivas futuras e consolidação das práticas sustentáveis
Os conteúdos discutidos no evento de 24 de setembro de 2026 desenham um panorama consistente para a evolução da construção civil e do urbanismo no Brasil. A união entre novas bases técnicas de aprovação, planejamento sistêmico, estruturação de capital e histórico de aplicações práticas indica que as Soluções Baseadas na Natureza deixaram de ser experimentais e passam a integrar o núcleo estratégico de novos desenvolvimentos urbanos.
A consolidação desse modelo, no entanto, ainda depende de passos importantes a serem dados pelo poder público e pela iniciativa privada. Permanece em aberto a ampla uniformização dessas diretrizes nos planos de desenvolvimento municipais de cidades de pequeno e médio porte, as quais frequentemente carecem de quadros técnicos preparados para analisar projetos com essas características. Da mesma forma, os modelos contratuais de parcerias público-privadas e os incentivos tributários associados a obras verdes dependem de regulamentações complementares em diversas esferas federativas.
À medida que os municípios enfrentam pressões crescentes decorrentes de episódios climáticos severos, as análises trazidas por especialistas como Jadna Beltrame Lemos, Ruth Portugal, Pierre André Martin, Marcelo Manara, Mara Alvim Motta, Myriam Tschiptschin, Duarte Vaz, Adriana Levisky, Marcelo Novaes e Paulo Velzi servem como referência para o mercado. O compartilhamento das apresentações técnicas contribui para elevar a qualidade dos projetos em andamento, oferecendo um roteiro prático para a construção de centros urbanos mais preparados, funcionais e sustentáveis.








