O mercado da construção civil voltado a empreendimentos produtivos deu um passo decisivo para aprimorar a previsibilidade financeira de seus projetos. Reunido no dia 30 de setembro sob a condução de seu coordenador, Tiago Rossi, o Comitê de Obras Industriais (COI) da entidade patronal debateu de forma aprofundada as bases técnicas para a criação do inédito INCC Não-Residencial, um referencial específico voltado a mensurar as oscilações de preços nos canteiros fabris e logísticos. O encontro também se debruçou sobre o aprimoramento de relações contratuais, inovações tecnológicas no transporte de cargas pesadas e métodos extrajudiciais para a prevenção e solução de litígios.

Atualmente, as variações de preços de insumos e mão de obra do segmento não contam com um indexador público com a mesma granularidade dos índices residenciais tradicionais. O avanço das tratativas técnicas junto a pesquisadores especializados visa suprir essa lacuna do mercado, oferecendo parâmetros estruturados para balizar orçamentos, reajustes e investimentos em infraestruturas industriais, centros de distribuição e instalações de alta complexidade.

Estruturação do INCC Não-Residencial e o foco nos galpões

A formulação de um índice capaz de refletir com exatidão a realidade financeira do setor não residencial envolve complexidades técnicas singulares. Conforme explicou a coordenadora de Projetos da Construção do FGV Ibre, Ana Maria Castelo, a metodologia inicial proposta consiste em mapear primeiramente os custos do galpão industrial. A partir dessa tipologia de base, o estudo poderá verificar como medir com precisão os valores associados às demais modalidades construtivas industriais.

Contudo, a especialista pontuou que caberá ao próprio comitê deliberar formalmente sobre a linha de partida das pesquisas, avaliando se a prioridade recairá sobre os galpões, sobre os data centers — infraestruturas que demandam especificações elétricas, térmicas e de segurança bastante particulares — ou sobre outros modelos de edificações voltadas à produção. Diante desse cenário, Tiago Rossi sugeriu que o processo seja aberto prioritariamente pelos galpões, modelo que concentra grande volume de obras no cenário logístico e manufatureiro nacional.

Para assegurar que o índice tenha respaldo estatístico robusto, o responsável pelo INCC-M do FGV Ibre, André Braz, sublinhou a necessidade de se compreender a fundo as particularidades dos diferentes tipos de galpões existentes no mercado, garantindo que o indicador represente de modo fiel os custos operacionais. Segundo Braz, o passo imediato requer a obtenção de orçamentos atualizados de obras de galpões industriais, permitindo calcular detalhadamente a ponderação e o peso de cada tipo de material, maquinário e sistema construtivo adotado nos projetos.

Adesão das construtoras e o modelo do ICC São Paulo

A fidedignidade de qualquer termômetro econômico está ligada à quantidade e à qualidade dos dados fornecidos pelas empresas atuantes na ponta do canteiro. O membro do COI Milton Meyer frisou que a acurácia do novo indicador será diretamente proporcional ao volume de construtoras que compartilharem seus custos reais de execução com a instituição técnica responsável pela modelagem.

Como demonstração prática da eficácia do modelo cooperativo de dados, o presidente executivo da entidade representativa, Eduardo Zaidan, informou que aproximadamente 40 empresas associadas já fornecem informações contínuas para a apuração mensal do ICC São Paulo. Esse histórico de cooperação setorial serve de incentivo para que as empresas de engenharia industrial se engajem no fornecimento regular de orçamentos e planilhas analíticas, fortalecendo a base amostral do futuro índice.

Adoção de fórmulas paramétricas e personalização contratual

Uma questão técnica central trazida ao debate foi o formato de aplicação dos índices nas relações comerciais da engenharia industrial. O membro do comitê Sergio Glogowsky propôs que, em vez de se despender esforços no desenvolvimento de dezenas de indicadores isolados para cada tipologia de obra industrial, o setor seja orientado na criação de fórmulas paramétricas. Essa abordagem metodológica permite associar cestas de insumos específicas de acordo com a composição de cada projeto fabril, conferindo flexibilidade técnica sem sobrecarregar a apuração estatística.

Ao acolher a proposta, o coordenador Tiago Rossi esclareceu que a meta de trabalho caminha exatamente nesse sentido metodológico. O desenvolvimento dessas diretrizes e equações de reajuste terá como fundamento inicial o levantamento detalhado das composições de custos dos galpões industriais, que funcionará como ponto de partida paramétrico para as demais modalidades de edificações pesadas.

O direcionamento técnico estabelecido pelo comitê indica que os próximos passos dependerão da entrega de dados pelas construtoras e de reuniões de trabalho continuadas com a equipe econômica da fundação de pesquisa. O cronograma de lançamento ou o prazo final para a validação metodológica do índice ainda não foram estabelecidos de maneira pública pelo colegiado.

Busca por boas práticas e reequilíbrio nos contratos industriais

Além das discussões de ordem estatística e macroeconômica, os membros do comitê dedicaram parte da pauta às relações jurídicas entre os agentes do mercado. O grupo analisou propostas voltadas à formulação de manuais de boas práticas com o objetivo de tornar os instrumentos contratuais mais balanceados entre as empresas construtoras e os clientes contratantes, reduzindo assimetrias e prevendo com clareza a alocação de responsabilidades e riscos operacionais.

Empreendimentos industriais frequentemente enfrentam desafios decorrentes de prazos apertados, alterações de escopo técnico, flutuações severas no preço de insumos estratégicos e exigências operacionais imprevistas. A falta de mecanismos claros de reequilíbrio econômico-financeiro nos contratos pode gerar desgastes severos, paralisar canteiros e comprometer a saúde financeira dos envolvidos. Para dar andamento a essa agenda institucional, o comitê oficializou a constituição de um grupo de trabalho exclusivo, que se reunirá em ocasiões posteriores para estruturar diretrizes e recomendações aos contratantes e fornecedores de obras pesadas.

Logística vertical pesada e tecnologia em canteiros industriais

A engenharia de transporte vertical voltada a operações complexas também teve espaço relevante durante a agenda. Executivos da Atlas Schindler e da Villarta Elevadores realizaram uma apresentação detalhada sobre soluções de maquinário, capacidade logística e inovação para o segmento corporativo e industrial. A comitiva foi integrada por Fábio Kariya, gerente executivo de Novas Instalações; Fabiano Kluppel, gerente executivo comercial São Paulo; Fabiana Izidoro, executiva de Contas Estratégicas; Marcos Bariani, consultor de Produtos Villarta Elevadores; Thales Fernandes, gerente Villarta Elevadores; e Bruno Costa Guedes Sá, gerente comercial Villarta Elevadores.

Durante a exposição, Fábio Kariya apresentou a estrutura produtiva da companhia, que mantém unidades fabris dedicadas à fabricação de elevadores, escadas e esteiras rolantes nos municípios de Londrina e São Paulo, além de operar um centro de distribuição estratégico de peças de reposição localizado na capital paulista. O executivo listou inovações desenvolvidas para atender demandas logísticas modernas, tais como robôs de entrega (delivery) integrados aos sistemas verticais, esteiras rolantes reforçadas e elevadores de grandes dimensões capacitados para suportar volumes de alta tonelagem.

A apresentação destacou ainda serviços especializados em retrofit, voltados à modernização ou substituição completa de equipamentos antigos em complexos existentes. Na área de manutenção preventiva e corretiva, foi abordado o uso do Schindler Ahead, plataforma tecnológica focada no monitoramento remoto e em tempo real do funcionamento de elevadores e esteiras rolantes, permitindo antecipar falhas operacionais em plantas industriais, instalações hospitalares e aeroportos.

Planejamento estrutural precoce e cumprimento de prazos

Os desafios de infraestrutura civil para equipamentos de grande capacidade foram pormenorizados por Thales Fernandes. O gerente detalhou as particularidades das diferentes classes de elevadores industriais de carga, cuja capacidade pode alcançar até 10 toneladas. Fernandes salientou que esse porte de maquinário exige uma interlocução técnica próxima entre construtores e fabricantes desde as fases preliminares do projeto arquitetônico e estrutural, prevenindo retrabalhos nas caixas de corrida e nas áreas de carga e descarga.

Na mesma linha de integração, Fabiano Kluppel ressaltou que a fabricante está estruturada para prestar assessoria técnica direta aos clientes durante o desenvolvimento dos projetos executivos, indicando soluções simultaneamente eficientes e de menor custo operacional. Abordando uma das preocupações frequentes da construção civil industrial — o cumprimento rigoroso dos cronogramas físicos de montagem —, Kluppel informou que as entregas da empresa permanecem dentro dos prazos estipulados e comunicou que a companhia promoveu uma ampliação expressiva em suas equipes operacionais de montagem em campo.

Mediação como instrumento de segurança jurídica e preservação de parcerias

Para além dos aspectos técnicos de engenharia e estatística, a resolução ágil de impasses contratuais encerrou os trabalhos do comitê com uma apresentação conduzida por Bárbara Kelch, coordenadora do Centro de Mediação do SindusCon-SP (CMS). A especialista expôs os principais fatores geradores de atritos nas obras civis, demonstrando que a via da mediação estruturada atua como mecanismo eficaz para compor acordos, evitando que divergências ordinárias da construção escalem para longas disputas no Poder Judiciário.

Kelch contextualizou as características e os benefícios diretos do método conciliatório, enfatizando que seu formato cooperativo protege as relações comerciais de longo prazo estabelecidas entre construtoras, clientes e prestadores de serviços, impedindo a ruptura de laços mercadológicos essenciais. Ao detalhar o funcionamento do CMS, a coordenadora destacou que o diferencial do centro reside na qualificação técnica de seu corpo de mediadores, composto por profissionais que compreendem com profundidade as rotinas e a linguagem das obras, da engenharia e da gestão contratual.

Outro ponto ressaltado durante a explicação institucional é que o termo de acordo firmado no âmbito da mediação extrajudicial possui valor jurídico e força executiva formal. Com isso, os agentes do setor industrial dispõem de uma ferramenta rápida, economicamente vantajosa e dotada de respaldo legal pleno para resolver desacordos de canteiro, prazos ou pagamentos sem depender dos trâmites demorados dos tribunais tradicionais.

As deliberações firmadas pelo COI reforçam uma agenda setorial focada na profissionalização da cadeia de obras industriais. A convergência entre um referencial de custos não residencial a ser desenhado pelo FGV Ibre, a busca por contratos equilibrados, o planejamento antecipado no fornecimento de equipamentos industriais de carga pesada e a segurança proporcionada pela mediação institucional formam o alicerce de um segmento fabril cada vez mais integrado e previsível em seus investimentos.