A capital catarinense transformou-se no centro das principais discussões sobre o bem-estar ocupacional, a modernização dos processos de trabalho e a sustentabilidade corporativa no setor produtivo. Realizado na sede da Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (FIESC), em Florianópolis, o Encontro Nacional dos Seconcis (ENSE) reúne lideranças, técnicos e gestores dos Serviços Sociais da Indústria da Construção Civil de várias regiões brasileiras entre os dias 23 e 25 de setembro. O evento tem como propósito central aprofundar a integração institucional e estruturar respostas coordenadas para as transformações que impactam diretamente o cotidiano dos canteiros de obras em todo o país.
Idealizada pela Associação dos Serviços Sociais da Construção (Seconci Brasil), a iniciativa foi organizada em uma ação conjunta encabeçada pelas entidades de Florianópolis, Joinville e Blumenau. Ao longo de três dias de atividades, o congresso proporciona um ambiente voltado à troca de metodologias, à difusão de boas práticas e à avaliação de temas de alta relevância estratégica. O cronograma contempla desde o gerenciamento de dados na área da saúde e atualizações em diretrizes regulamentares até os efeitos práticos da reforma tributária e a incorporação de ferramentas de inteligência artificial na rotina das instituições e das empresas construtoras.
A força da rede nacional e a atuação integrada dos Seconcis
A capilaridade dos Serviços Sociais da Construção Civil representa uma das engrenagens mais consistentes de suporte direto à qualidade de vida do trabalhador da construção civil. Atualmente, o Seconci Brasil congrega 14 entidades ativas, cuja abrangência física e assistencial alcança 28 municípios distribuídos por oito estados da federação, além do Distrito Federal. Essa rede opera continuamente prestando serviços essenciais nas áreas de saúde primária, medicina ocupacional, odontologia e treinamento em segurança preventiva diretamente vinculados às demandas do setor imobiliário e de obras públicas.
Durante a cerimônia oficial de abertura do encontro, o presidente do Seconci Brasil, Antônio Carlos Salgueiro, destacou a importância de manter um fluxo perene de cooperação entre as entidades regionais, permitindo que localidades com estruturas distintas possam se fortalecer mutuamente. Em seu discurso aos participantes, a liderança enfatizou o valor pedagógico da convivência interinstitucional no enfrentamento dos desafios contemporâneos da indústria da construção civil:
“Estou muito contente porque esse momento é muito importante para nós. É uma grande oportunidade de troca de experiências, em que todos estão dispostos a aprender. Do maior para o menor, e vice-versa, aprendemos com todos e em todos os atendimentos que realizamos diariamente. Essa troca é o que fortalece a nossa atuação”, contou Salgueiro.
A proposta de convergência possibilita que projetos estruturados em determinados polos regionais, que obtiveram êxito ao mitigar acidentes ou aprimorar diagnósticos clínicos precoces em canteiros de obras, possam ser adaptados e implantados em outras cidades atendidas pelo sistema. Com isso, os investimentos em programas assistenciais ganham escala e reduzem os custos operacionais por meio da padronização e do reaproveitamento de soluções validadas tecnicamente.
Transformações regulatórias e o foco nos riscos psicossociais da NR-1
Um dos eixos temáticos de maior repercussão técnica dentro do ENSE está diretamente ligado às exigências normativas que regulam a rotina da construção civil, com destaque para a Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1). As atualizações em torno dessas diretrizes impõem uma revisão profunda nos modelos de gestão de segurança das companhias, transferindo o foco de uma abordagem puramente documental para ações comportamentais efetivas. O debate ganha urgência diante da necessidade de incorporação formal da análise sobre fatores psicossociais no ambiente de trabalho das obras.
A análise dos riscos psicossociais estabelecida no escopo regulatório demanda que os canteiros adotem estratégias estruturadas para lidar com questões como sobrecarga de trabalho, estresse ocupacional, cansaço mental e dinâmicas de liderança. O tratamento desses fatores exige preparo contínuo das equipes multidisciplinares dos Seconcis, que atuam no suporte diário às construtoras para mapear preventivamente situações de vulnerabilidade física e emocional entre os operários, prevenindo o adoecimento e reduzindo índices de absenteísmo.
Sobre a importância de assimilar as alterações legislativas sem perder a missão fundamental de assistência, o presidente do Seconci Blumenau, Clóvis Roberto Barbieri Filho, frisou a necessidade de alinhamento com as transformações que cercam a indústria e suas normas técnicas:
“Neste ano, teremos uma temática muito relacionada ao futuro, abordando questões normativas, legislação e, pela equipe de Santa Catarina, a inteligência artificial aplicada à construção. Também teremos temas relacionados à NR-1, que exigem mudanças comportamentais. Mas não podemos perder de vista o nosso foco principal, que é o atendimento ao trabalhador”, lembrou Barbieri Filho.
Tecnologia em foco: inteligência artificial e gestão de dados em saúde
A transformação digital consolidou-se como um pilar indispensável para o aprimoramento dos serviços sociais e médicos oferecidos ao setor da construção. No encontro realizado na FIESC, a gestão de dados em saúde integral desponta como instrumento para conferir assertividade preventiva aos atendimentos clínicos. A centralização de históricos, o rastreamento epidemiológico das ocorrências mais frequentes entre os trabalhadores e a geração de indicadores confiáveis auxiliam gestores públicos e privados na formulação de campanhas de saúde assertivas.
Paralelamente, a aplicação de recursos de inteligência artificial na rotina administrativa dos Seconcis e nos processos executivos da construção civil integra as discussões como uma ferramenta de otimização de tempo e de recursos financeiros. A tecnologia tem demonstrado capacidade para potencializar o diagnóstico precoce, automatizar triagens em saúde ocupacional, prever cenários de risco dentro de obras de grande porte e aperfeiçoar a logística de atendimento móvel ou ambulatorial mantida pelas entidades associadas em seus respectivos municípios.
O desafio apresentado durante os debates reside em estabelecer diretrizes éticas e técnicas para a utilização dessas inovações, garantindo que o avanço tecnológico sirva como alavanca direta para a proteção da vida humana. As equipes técnicas debatem parâmetros operacionais para a integração segura dessas novas plataformas digitais aos sistemas legados dos Seconcis, visando proteger os registros médicos individuais e, ao mesmo tempo, assegurar relatórios estatísticos robustos para o setor.
Reforma tributária e a sustentabilidade das entidades assistenciais
Outro tópico central inserido na pauta do encontro é a reforma tributária em andamento no Brasil. A reestruturação do sistema impositivo nacional suscita dúvidas e exige acompanhamento atento por parte das organizações sem fins lucrativos e prestadoras de serviços do terceiro setor voltadas à indústria. O impacto sobre a folha, as alíquotas de serviços de saúde, os regimes diferenciados e a estabilidade orçamentária dos Serviços Sociais da Construção Civil dependem de regulamentações complementares que ainda tramitam no Congresso Nacional.
A discussão técnica promovida pelo ENSE visa municiar os gestores com análises financeiras e projeções econômicas sólidas. Entender os desdobramentos das novas leis é determinante para que os Seconcis possam planejar seus investimentos futuros em novas unidades móveis, na compra de insumos clínicos, na modernização de gabinetes odontológicos e na expansão do quadro de profissionais de medicina e segurança do trabalho.
A sustentabilidade operacional das entidades reflete diretamente na capacidade das empresas construtoras, especialmente as pequenas e médias, em oferecer um suporte de saúde estruturado às suas equipes. Como o texto regulatório da reforma ainda aguarda definições completas sobre a abrangência de certas isenções e tratamentos tributários específicos para o setor social, as lideranças presentes no encontro buscam unificar entendimentos para orientar juridicamente a rede nacional.
Protagonismo catarinense e a preservação da memória institucional
A escolha de Santa Catarina como anfitriã da edição reflete a representatividade e a consolidação do associativismo no estado. A condução conjunta organizada pelos Seconcis de Florianópolis, Joinville e Blumenau evidencia um modelo de gestão colaborativa que articula entidades locais e federações empresariais para promover avanços nos índices de segurança do trabalho.
Ao discursar na solenidade de abertura, o presidente do Seconci Grande Florianópolis, Carlos Berenhauser Leite, ressaltou o valor da união institucional e reverenciou os alicerces históricos que permitiram a consolidação das operações na região:
“Estamos realizando um evento conjunto, que demonstra, na prática, que a integração entre os Seconcis se transforma em ações efetivas. Estamos muito emocionados em receber todos vocês. E não podemos deixar de lembrar de José Carlos Dechamps, que foi fundamental para a criação do Seconci Florianópolis e para a construção dessa história”, explicou Leite.
Essa perspectiva colaborativa também foi reforçada pelo diretor do Seconci Joinville, Jorge Luiz Correia, que relacionou sua ampla experiência institucional ao compromisso com a melhoria contínua das condições operacionais nos canteiros catarinenses:
“Desde que entrei para o setor da construção em Santa Catarina, sempre tivemos como foco a qualidade e o atendimento nos canteiros de obras. Primeiro, quero registrar que sou diretor da FIESC há 16 anos, e essa experiência também reforça a importância da integração entre as instituições e da construção conjunta de soluções para o setor. É uma satisfação participar deste momento e contribuir para essa troca de experiências entre os Seconcis”, comentou Correia.
Estrutura da programação e desdobramentos operacionais
A grade programática do ENSE foi dividida em três etapas complementares para contemplar aspectos operacionais, conceituais e deliberativos. As atividades começaram na quarta-feira (23), dia dedicado a uma visita institucional às instalações do Seconci da Grande Florianópolis, realizada em grupos escalonados ao longo do dia para permitir a observação das rotinas clínicas, dos fluxos de triagem e das soluções de atendimento médico prestadas no local.
Dinâmica das mesas técnicas e debates centrais
Na quinta-feira (24), a programação avançou com uma sequência densa de palestras especializadas voltadas à gestão em saúde integral, complementadas pela apresentação detalhada de casos reais vivenciados pelos Seconcis nos canteiros de obras de diferentes regiões do país. O período vespertino e os intervalos foram reservados para a realização de reuniões técnicas setoriais, agrupando profissionais de medicina, direito, tecnologia da informação e assistência social.
O encerramento do evento, agendado para a sexta-feira (25), prevê painéis dedicados à avaliação prática dos riscos psicossociais da NR-1 e ao aproveitamento da inteligência artificial aplicada à gestão diária das entidades, além do fechamento das reuniões técnicas de cada comitê especializado. Os consensos e diretrizes pactuados ao longo dessas sessões devem servir de parâmetro para a padronização das ações preventivas nos 14 Seconcis do Brasil nos próximos meses, consolidando a saúde ocupacional e a inovação tecnológica como eixos indissociáveis do desenvolvimento sustentável da construção civil.









