O setor da construção civil no Brasil iniciou um movimento estruturado de transformação em seus modelos de gestão de pessoas e nas relações de trabalho nos canteiros. Por intermédio do programa Trilhas Profissionais da Construção, entidades representativas da indústria e dos trabalhadores formalizaram uma metodologia pioneira voltada a padronizar a evolução de carreira, unificar critérios técnicos de avaliação e substituir nomenclaturas históricas da atividade por termos alinhados às competências contemporâneas da produção industrial. A proposta pretende instituir um plano de desenvolvimento profissional que tenha validade e reconhecimento em todo o mercado, independentemente da construtora ou da empreiteira em que o operário esteja alocado.

A iniciativa foi detalhada para empresários e gestores corporativos durante encontro realizado no auditório da Escola Senai Roberto Mange, situado no município de Campinas. A exposição foi conduzida pelo diretor da Regional Campinas do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (SindusCon-SP), Marcio Benvenutti, ao lado da diretora de unidade do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial de São Paulo (Senai-SP), Camila Pimenta. A formulação do projeto é resultado direto da convergência institucional entre o SindusCon-SP, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), o Senai-SP, o Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Civil de São Paulo (Sintracon-SP) e a Federação dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção e do Mobiliário do Estado de São Paulo (Feticom).

O redesenho das funções e a atualização das nomenclaturas no setor

Uma das mudanças centrais propostas pelas diretrizes do programa reside na modernização do vocabulário operacional empregado nos canteiros de obras de todo o território paulista e nacional. Termos consagrados pelo uso tradicional ao longo de décadas, como “servente” e “pedreiro”, passarão por um processo formal de transição para novas designações que espelham as competências técnicas e a sofisticação exigidas pela engenharia moderna. Na nova estrutura, essas ocupações passam a ser denominadas como Assistente de Produção e Oficial de Produção, respectivamente, buscando conferir maior dignidade, clareza e alinhamento funcional ao cotidiano das obras.

Para assegurar que essa transformação não fique restrita aos manuais internos de recursos humanos das companhias, o SindusCon-SP atuará diretamente junto aos órgãos competentes do governo federal para a revisão dessas terminologias na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), coordenada pelo Ministério do Trabalho. A inserção dos novos títulos no registro oficial visa garantir segurança jurídica para a contratação, facilidade de enquadramento previdenciário e uma correspondência direta entre a carteira de trabalho e as responsabilidades executadas na linha de frente dos empreendimentos.

A arquitetura do programa organiza toda a trajetória dos trabalhadores em sete linhas de atuação técnica e sete níveis de evolução profissional. Essa matriz tridimensional define de maneira transparente as exigências de escolaridade, horas de treinamento formal, tempo de experiência prática comprovada e processos de certificação necessários para que o operário avance de um nível para o outro. Atualmente, o cenário predominante na construção é marcado pela fragmentação: cada empresa adota títulos próprios, políticas salariais desiguais e critérios subjetivos para promoções, o que inviabiliza a criação de um horizonte de longo prazo para os trabalhadores e gera desorientação administrativa nas equipes de gestão de pessoas.

Combate ao apagão de mão de obra e transparência salarial

A formulação das Trilhas Profissionais surge em um momento decisivo para enfrentar a crônica escassez de profissionais preparados para atuar nos empreendimentos imobiliários e de infraestrutura. Dados setoriais apresentados no encontro indicam que a remuneração de entrada no mercado formal da construção civil gira em torno de R$ 2,4 mil, valor que conta com todas as garantias e encargos da legislação trabalhista e benefícios sociais. Na outra ponta da pirâmide operacional, posições de liderança técnica no canteiro, a exemplo do cargo de mestre de obras, alcançam vencimentos mensais que oscilam entre R$ 15 mil e R$ 20 mil.

Apesar desse patamar financeiro atrativo na comparação com outros ramos da economia, a ausência histórica de uma trajetória de carreira nítida e previsível afasta novas gerações e enfraquece a retenção de talentos nas empresas. Sem visualizar os degraus necessários para transitar da remuneração básica de ingresso aos postos mais especializados e bem remunerados, muitos operários migram para atividades informais ou abandonam o segmento após curtos períodos. O novo sistema procura sanar essa lacuna de comunicação e planejamento, fornecendo uma rota tangível de progresso socioeconômico.

Essa dificuldade cotidiana de recrutamento foi relatada por representantes corporativos presentes ao lançamento. O analista de recursos humanos da construtora A.Yoshii, Fernando Carvalho Maryama, destacou como a ausência de trabalhadores especializados atinge funções essenciais no andamento das obras: “Cito o exemplo de pintor. Temos uma grande dificuldade para contratar esse profissional em Campinas. Fizemos um levantamento de pintores e chegamos a conclusão que outras construtoras também estavam com essa mesma dificuldade”. A constatação da empresa reforça o diagnóstico de que o gargalo de mão de obra deixou de ser um problema isolado de determinados canteiros e passou a configurar um obstáculo estrutural compartilhado pelas organizações do setor na região.

Capacitação técnica dentro dos canteiros de obras com o Senai-SP

Para viabilizar a progressão dos colaboradores dentro dos sete níveis estabelecidos, o modelo descentraliza a sala de aula e estabelece que as próprias construtoras serão responsáveis pelo investimento financeiro e logístico na formação de suas equipes. Toda a base pedagógica e os processos de avaliação técnica serão operacionalizados pelo Senai-SP, instituição que desenhou matrizes curriculares exclusivas e parâmetros objetivos de certificação para cada uma das sete frentes técnicas delimitadas pelas Trilhas Profissionais.

As atividades de qualificação serão executadas prioritariamente dentro dos próprios canteiros de obras, minimizando os deslocamentos dos funcionários e garantindo que o aprendizado seja aplicado de imediato aos processos construtivos reais. O cronograma prevê a reserva de duas horas semanais da jornada de trabalho destinadas exclusivamente às aulas teóricas e práticas. Alternativamente, os módulos também poderão ocorrer nas instalações físicas do Senai-SP, com cargas horárias parametrizadas segundo a complexidade de cada especialidade.

A diretora de unidade do Senai-SP, Camila Pimenta, ressaltou a importância dessa aproximação física entre a escola e a produção, além de salientar o desafio de superar o aprendizado puramente informal: “Vamos levar essa formação, seja para um curso simples de 48 horas, 60 horas ou 80 horas, para dentro dos canteiros de obras, para a primeira oportunidade de acesso para essa qualificação. Sabemos que esse trabalhador, muitas vezes, aprende de forma empírica, de pai para filho, ou no caso, de trabalhador para trabalhador. Levar essa formação de maneira correta é uma responsabilidade nossa, junto com as construtoras”. A sistematização educacional visa substituir a transmissão oral e assistemática de práticas de execução por padrões normatizados de segurança, controle tecnológico e produtividade.

Industrialização do setor e valorização das competências

A estruturação das carreiras dialoga intimamente com a evolução dos processos construtivos no Brasil, marcados pelo avanço da industrialização, do uso intensivo de elementos pré-fabricados, de novas tecnologias de materiais e de sistemas de gestão digital de projetos. Nesse contexto fabril adaptado ao canteiro, métodos rudimentares de trabalho perdem espaço para linhas de montagem complexas, nas quais cada etapa exige precisão milimétrica e domínio de ferramentas sofisticadas.

O diretor da Regional Campinas do SindusCon-SP, Marcio Benvenutti, pontuou que o desenvolvimento das Trilhas Profissionais foi concebido justamente para fornecer o suporte de recursos humanos demandado pela transformação tecnológica da construção civil. Segundo o dirigente, a uniformização dos papéis operacionais cria as bases para que o aprimoramento técnico resulte em ganhos efetivos de remuneração para os trabalhadores.

Ao abordar os impactos estruturais do projeto, Marcio Benvenutti explicou a dinâmica da iniciativa: “O programa desenvolvido junto com o Senai, propõe novas normas, unificando a nomenclatura dessas profissões, de norte a sul do País, assim as competências desses profissionais. Dessa forma, pode ocorrer inclusive a valorização salarial em razão da melhoria na qualificação”. A correlação direta entre qualificação mensurável e evolução nos rendimentos tende a estimular o interesse individual pelo aperfeiçoamento contínuo, reduzindo retrabalhos e desperdícios materiais nas obras.

Projeto-piloto, governança e etapas para a abrangência nacional

A implementação prática da nova sistemática de recursos humanos será inaugurada por meio de um projeto-piloto com duração fixada em 12 meses. Essa fase inicial funcionará em regime voluntário e envolverá diretamente um grupo restrito de empresas: dez construtoras, sendo que cada uma delas atuará vinculada a duas empreiteiras subcontratadas. Ao todo, 30 empresas participarão do teste prático para calibrar o funcionamento dos cursos, a assimilação dos novos cargos pelas equipes e a eficácia das avaliações do Senai-SP no ambiente operacional.

Após a conclusão e validação do ciclo de experimentação de um ano, o plano de trabalho estabelece uma rota clara de consolidação institucional. A expectativa expressa pelas lideranças do setor é que os novos parâmetros, cargos e regras de evolução de carreira passem a integrar oficialmente as convenções coletivas de trabalho no estado de São Paulo, tornando-se referências vinculantes para os acordos sindicais firmados conjuntamente por SindusCon-SP, Fiesp, Sintracon-SP e Feticom.

O alcance almejado, no entanto, transcende as fronteiras paulistas. O objetivo estratégico final do setor empresarial é estender o programa para todo o território nacional. Essa expansão federativa será conduzida em parceria com a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), por intermédio da sua Comissão de Política de Relações Trabalhistas (CPRT). Caberá a essas instâncias nacionais negociar a adaptação da matriz de competências e das novas nomenclaturas aos contextos regionais de outras federações e sindicatos patronais e laborais, unificando o mercado de trabalho da construção civil no país.